REVISTA LIBERDADES

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Artigo
01
O CASAMENTO NEGRO É QUEER? - IS BLACK MARRIAGE QUEER?
Kendall Thomas

Kendall Thomas
Kendall Thomas é Professor de Direito, co-fundador e diretor do Center for the Study of Law and Culture na Faculdade de Direito da Columbia University. Coeditou a obra What’s Left of Theory (Routledge, 2000) com Judith Butler e John Guillory; Critical Race Theory: The Key Writings That Formed the Movement (New Press, 1995) com Kimberlé Williams Creenshaw, Neil Gotanda e Gary Peller; e Legge, Razza e Diritti: La Critical Race Theory negli Stati Uniti com Gianfrancesco Zanetti (Diabasis, 2005). Publicou diversos artigos, ensaios e capítulos sobre direito constitucional, teoria jurídica feminista, teoria racial crítica, direitos humanos e direito e sexualidade. Educador ativista, Thomas integrou as seções de jurisprudência e de direito e humanidades da Associação Americana das Escolas de Direito e é membro fundador da Majority Action Caucus da Coalização AIDS para Liberação do Poder, do grupo Sex Panic! e da Liga de Ação para Prevenção da AIDS.

kthomas@law.columbia.edu

Tradução: Thiago A. P. Hoshino
Thiago A. P. Hoshino é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal do Paraná e pesquisador do Núcleo de Constitucionalismo e Democracia (CCONS/PPGD/UFPR) e do LABÁ – Direito, Espaço e Política (UFRJ/UFPR/UNIFESP). Membro do Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico, da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (RENAFRO) e do conselho editorial da Revista Anthropocenes- Human, Inhuman, Posthuman, desenvolve atualmente pesquisa nas áreas de direitos humanos, antropologia do direito, direito à cidade, religiões de matriz africana e relações étnico-raciais. Co-organizador do livro Direitos dos Povos de Terreiro (Eduneb, 2018).

ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3261-6726

hoshino.thiago@gmail.com

Recebido em: 09.10.2019

Última versão do(a) autor(a): 09.12.2019

Nas páginas iniciais da introdução de Wedlocked: the perils of marriage equality, Kathetine Franke propõe uma exploração e um encontro queer [1] entre “as experiências de liberdade de pessoas emancipadas no período pós-Guerra Civil e as de lésbicas e homens gays hoje” (FRANKE, 2015, p. 7). O objetivo, anota Franke, é “melhor compreender como o movimento pelos direitos gay colapsou num movimento pelo direito de casar” e analisar quais podem ser os “custos” dessa estratégia olhando “para um tempo no qual os direitos matrimoniais se conectavam com os direitos de liberdade, igualdade e dignidade” de outra “população marginalizada: as(os) recém-libertas(os) em meados do século dezenove”.

Minhas ideias nestas páginas sobre as possibilidades e o potencial queer do “casamento negro” [2] respondem a uma provocação do último parágrafo da introdução de Franke, que anuncia a “questão central” (FRANKE, 2015, p. 21) enfrentada em Wedlocked. Leitoras(es) familiarizadas(os) com o livro devem lembrar-se que o tema é desencadeado por uma observação (que reputo totalmente correta) sobre como a exitosa campanha por direitos matrimoniais nos Estados Unidos “elevou o status civil das pessoas gays”, enquanto a instituição do casamento notoriamente não “teve o mesmo papel” nas vidas das(os) americanas(os) afrodescendentes (FRANKE, 2015, p. 21). Nos termos bem diretos de Franke, “o casamento serviu basicamente como um teste” no qual as(os) afro-americanas(os) seguem “fadadas ao fracasso”. “Através desses fracassos”, continua a autora, a “mancha da raça – tanto moral quanto biologicizada – tem sido escrita e reescrita nos corpos negros (FRANKE, 2015, p. 19; destaques meus). Para Franke, o problema central é então o de saber “como o direito de casar nos ajuda a entender melhor a natureza persistente, indelével mesmo, do estigma racial, particularmente quando comparado com o estigma de ser gay?” (FRANKE, 2015, p. 21; destaques meus).

Note-se a mudança aqui de acento e ênfase. Ao longo de poucas páginas, Wedlocked migra de sua preocupação inicial – alegadamente, a preocupação com o que a experiência pós-guerra da população escravizada e proibida de se casar no regime conjugal americano poderia ensinar à comunidade gay e lésbica de hoje sobre “os perigos de uma política de igualdade e liberdade efetivada via direitos matrimoniais” (FRANKE, 2015, p. 19) – para um campo muito diferente de investigação. Invertendo os termos e revertendo a relação pedagógica com a qual começou, essa segunda narrativa do casamento nos Estados Unidos se debruça sobre os movimentos gay e lésbico, especialmente quanto ao êxito da campanha por eles encabeçada pela “liberdade de casar”, e sobre o que eles poderiam nos ensinar quando postos em relação com a história e a atualidade do “persistente, indelével mesmo” estigma racial cuja longue durée negou e continua a negar às(aos) afro-americanas(os) a mesma “dignidade da autodefinição” que permitiu a outros grupos “redefinir o que significa ser gay” (FRANKE, 2015, p. 21).

O que explica essa divisão redefinicional? Wedlocked oferece duas explanações separadas, cada uma das quais aponta para orientações teóricas distintas. A primeira linha de interpretação, mais explícita e substancial, conta uma história “econômica” centrada na ideia-imagem de “capital racial”. Numa formulação intrigante, Franke sustenta que os destinos divergentes das experiências lesbigay e negra no regime conjugal americano derivam em parte da “reputação social” de que a igualdade de matrimônio e de que os movimentos gay e lésbico “desfrutam como brancos” (FRANKE, 2015, p. 198). Em outras palavras, o fato de que a face pública do movimento gay e lésbico pela igualdade matrimonial tenha sido imaginada e propagandeada como branca fez com que a campanha se beneficiasse do “investimento possessivo na branquitude” (LIPSITZ, 2006, p. 2) da sociedade americana e dos “efeitos de posse racial” [3] (FRANKE, 2015, p. 13) vinculados ao bem social que Cheryl I. Harris incisivamente denominou “branquitude como propriedade” (1993: 1713). Os privilégios raciais e os dividendos do capital reputacional da branquitude (FRANKE, 2015, p. 198) são bens que o movimento pró-casamento gay e lésbico podem utilizar de modo produtivo, transformador. Em contrapartida, a comunidade afro-americana não gay ainda teria de acumular um “capital sexual” comparável, a partir da reputação social de que goza como heterossexual (FRANKE, 2015, p. 198). De fato, Franke argumenta que “o movimento em prol do casamento entre pessoas do mesmo sexo é em si mesmo racializado” de maneira que não apenas beneficiam a pauta, mas também contribuem e reforçam “a contínua subordinação das pessoas negras” de todas as orientações sexuais, ao mesmo tempo restringindo os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres americanas (FRANKE, 2015, p. 12).

Não ousarei a mesma complexidade de recursos históricos, conceituais e normativos que Wedlocked mobiliza para embasar sua narrativa sobre o sucesso gay e lésbico (branco) e o fracasso (heterossexual) afro-americano. Me limitarei a um par de comentários sobre a “curiosa” (FRANKE, 2015, p. 51) arquitetura que informa a análise de Franke sobre raça, sexualidade, “racialidade sexual” e os sentidos do “casamento negro” na política conjugal americana. Meu interesse é em como e porque o “emparelhamento queer” (FRANKE, 2015, p. 6) que o trabalho propõe das experiências de luta por igualdade matrimonial da população negra ex-escravizada no pós-Guerra Civil e das pessoas gays e lésbicas anteriormente criminalizadas se passa num “espaço lógico”, para usar a expressão de Richard Rorty (1991, p. 13) cuja visão do que o casamento negro é ou pode tornar-se é, na verdade, estranhamente unqueer.

Explicarei melhor o que quero dizer retornando ao caminho que Franke trilha no final da introdução de seu livro. Observei acima que Wedlockd oferece duas versões distintas para a persistente inabilidade das(os) heterossexuais afro-americanas(os) para se valerem do casamento e do direito ao casamento para “reformular a negritude de maneira a sanar estereótipos racistas e formas coercitivas de disciplina racializada” (FRANKE, 2015, p. 61). Também já mencionei a narrativa de Franke sobre o capital racial, a qual atribui o sucesso da estratégia de ressignificação sexual promovida pela campanha “Liberdade para Casar” (Freedom to Marry) à sua reputação social como um movimento composto e liderado por pessoas brancas. Menos desenvolvida que sua interpretação econômica, porém, Franke enuncia outra razão para que afro-americanas(os) não homossexuais (straight) não tenham logrado aproveitar-se da ideologia e das instituições do casamento ou de sua reputação social como heterossexuais para impulsionar uma concepção revisada de raça em geral, e da negritude em particular. Poderíamos descrever essa como uma explicação “semiótica”, uma vez que ela enfoca a ideia-imagem de “sentido racial” e representação racial.

Nas páginas de que disponho, gostaria de brevemente tensionar a teoria da representação e do sentido racial que é elaborada – talvez menos elaborada que presumida – na última frase da introdução de Wedlocked. O que, pergunta Franke, no casamento negro (em comparação com o casamento lesbigay) faz dele um veículo tão ineficaz para “elevar o status” das(os) afro-americanas(os)? Ela traça a origem do problema na “indignidade definicional” que historicamente negou à população afro-americana acesso aos meios de autorrepresentação individual e coletiva. Diferentemente da sexualidade, a autora conclui que, “a assinatura da raça é uma marca que as pessoas negras têm poucas condições de escrever ou reescrever” (FRANKE, 2015, p. 22).

Permeia essa e outras passagens correlatas um tom de ambiguidade quanto à natureza da não emancipação discursiva, responsável por dificultar, quando não impossibilitar às(aos) afro-americanas(os) “re-representar” a raça e o sentido racial. Será a tese central de Franke uma proposição histórica de que as(os) afro-americanas(os) “nunca foram autorizadas(os)” a participar do debate público que produz os significados da raça e do casamento negro (FRANKE, 2015, p. 202)? Esse parece ser o impulso por detrás de assertivas como a de que “na maior parte dos casos, o casamento foi um mecanismo de inferiorização para as(os) afro-americanas(os) e de obtenção de respostas familiares que imprimem um rótulo de inferioridade”; ou a afirmação de que “o casamento segue sendo uma espécie de teste no qual a comunidade afro-americana é vista como reprovando” (FRANKE, 2015, p. 202). Por outro lado, há trechos de Wedlocked que sinalizam uma linha de raciocínio menos histórica e mais categorial, atribuindo a incapacidade discursiva da população negra de reconfigurar os sentidos da raça e do casamento negro como qualidades inerentes à própria ideia-imagem de raça – ou, mais precisamente, de negritude – como tal. De outra maneira, como entender a insistência de Franke em que o direito de casar revela “a natureza persistente, quase indelével, do estigma racial” ou a tese de que a “assinatura” da raça “não é apenas escrita pelas pessoas negras, mas é realmente “delas” no sentido de pertencer a elas, como uma propriedade de sua negritude”? (FRANKE, 2015, p. 21, 200; destaques meus).

Em jogo aqui estão mais do que duas concepções distintas acerca dos significados de raça e racismo nos Estados Unidos. A depender de como se lê Wedlocked, pode-se considerar que a obra desenvolve duas visões contraditórias sobre os prospectos e usos potenciais do casamento negro como um caminho para o empoderamento da agência negra e para a construção de intimidade relacional de resistência ao estado racial norte-americano e à sociedade civil. A leitura de que o estigma racial é “indelével” ou de que a marca da raça é uma “propriedade” dos corpos negros implica uma teoria do sentido racial que está a apenas um passo da perspectiva que enxerga a raça como uma “fronteira simbólica intransponível” (HALL, 2017, p. 131) e um eterno, imutável mesmo. Trocando em miúdos, perder de vista a “escrituração” da raça e do sentido racial é olvidar algo que todas(os) hoje sabemos: a raça é uma “construção discursiva” e um “significante deslizante” (HALL, 2017, p. 32) que podem ser reescritos para produzir contrassentidos e contradiscursos. O universo da raça, “como todos os mundos de sentido” é um mundo no qual o discurso “nunca pode ser definitivamente fixado”, um mundo no qual os signos raciais e os significantes estão “abertos a um deslizamento infinito”, a “atravessamentos”, contaminações, disrupções e desestabilizações por outros signos e “outros significantes – [por exemplo], classe, gênero e sexualidade” (HALL, 2017, p. 171). Para manter-se fiel às suas aspirações, portanto, uma teoria crítica queer do casamento negro deve recusar-se a restringir seu campo de visão ao que o casamento negro era no século dezenove ou mesmo ao que ele é em nosso século XXI. Ela deve estar também disposta a especular sobre o que o casamento negro pode tornar-se num futuro século XXII. Na mesma lógica, ao deparar-se com a questão de como a aliança íntima entre pessoas negras e a imaginação íntima negra podem ser mobilizadas para forjar novas e mais democráticas formas de cidadania sexual e racial, um engajamento crítico queer com a política do casamento negro deve declarar sua independência frente aos termos ideológicos e do terreno institucional do “ativismo legal e baseado em direitos” (FRANKE, 2015, p. 61).

Um espaço potencialmente rentável para o tipo de reflexão queer, especulativa e afro-futurista que estou provocando aqui sobre o casamento negro é o domínio da cultura e das artes onde, como notou Stuart Hall, “as coisas são ditas de maneiras que não o podem ser em outros domínios” (HALL; SCHWARZ, 2008, p. 153). Consideremos nesse marco o conjunto extraordinário de obras que diretoras(es) afro-americanas(os) têm produzido nos últimos anos sobre a intimidade negra nos Estados Unidos. Filmes narrativos como Mudbound, Fences, Birth of a Nation, Fruitvale Station e Moonlight, para nomear somente alguns, retratam amor negro, sexo, gênero e sexualidade, casamento, família e afetividade em histórias que imaginam e representam, figurativamente, as esperanças e medos, os sonhos, os desejos, os perigos, os deleites da vida íntima e erótica das(os) afro-americanas(os) para além dos limites binários da branquitude normativa e da negritude não-normativa, da supremacia branca e da inferioridade negra que organizam a apreciação do casamento negro em Wedlocked.

Em minha opinião, um dos aspectos mais interessantes dessas recentes figurações cinematográficas da intimidade e do eros afro-americanos é o modo como mesmo o mais convencional desses filmes consegue criar um ambiente estético e imagético que situa as vidas negras numa narrativa conjugal com inesperados efeitos queer. Tomemos o exemplo do fenômeno da Disney Pantera Negra (2018), no qual o diretor Ryan Coogler trouxe dos quadrinhos da Marvel à vida tridimensional uma nação imaginária chamada Wakanda. Pantera Negra conta a história do Príncipe T’Challa, que se torna rei de Wakanda e o super-herói Pantera Negra, depois que seu pai é assassinado enquanto faz um discurso nos Estados Unidos. O arqui-inimigo de T’Challa é o Príncipe N’Jadaka, um ex-soldado norte-americano e filho bastardo do tio de T’Challa, concebido no final do século XX, quando seu pai foi designado para uma missão em Oakland, Califórnia, como agente secreto.

Tematicamente, Pantera Negra é uma alegoria do embate épico ao redor do Atlântico Negro entre duas visões de política do pertencimento: a nativista, nacionalista, de identidade étnica de T’Challa, e a globalista, diaspórica, de identidade racial de N’Jadaka. Narrativamente, o filme é um drama familiar doméstico sobre a disputa mortal entre dois irmãos e seus filhos. Uma parte da mídia gay e lésbica criticou o filme por não incluir uma subtrama sobre o romance entre duas mulheres da guarda pessoal feminina do Rei T’Challa, existente na versão em quadrinhos. Todavia, os comentários sobre o filme desconsideraram um traço decididamente queer do mundo de Wakanda como os produtores o imaginaram e representaram. Um motivo forte de Pantera Negra é a questão identitária que, pela tradição, as(os) Wakandenses colocam umas(uns) às(aos) outras(os) quando se encontram: “Quem é você?” No curso do filme, cidadãs(ãos) de Wakanda se referem entre si como: Mãe, Pai, Rei, Rainha, Príncipe, Princesa, Irmã, Irmão, Tia, Tio, Prima(o), Filha(o). Há, porém, duas alcunhas que jamais são empregadas: Marido e Esposa. Com efeito, ao final de Pantera Negra, a audiência se dá conta de que talvez nem mesmo exista a instituição do casamento em Wakanda: o silêncio escrupuloso do filme nesse aspecto é ensurdecedor.

Pantera Negra evoca as possibilidades queer da intimidade negra e a não-identidade da conjugalidade no romance entre dois amantes-guerreiros, o casal heterossexual Okoye e W’Kabi. Ao longo do filme, W’Kabi e Okoye chamam um(a) à outra(o) de “meu amor”, uma frase que articula a intimidade negra ao mesmo tempo como um modo de endereçamento (meu amor) e como uma assinatura afetiva autointerpelativa (meu amor) cujos termos resistem à identificação e à institucionalização do discurso matrimonial. Em Pantera Negra, o relacionamento de Okoye e W’Kabi vira um ponto de partida cinematográfico para vislumbrar a heterossexualidade negra para além das barreiras dos constritivos códigos e convenções conjugais. O filme convida quem o assiste a entrar imaginativamente no mode de vie (FOUCAULT et al., 1981) da amizade queer, negra, heterossexual de Okoye e W’Kabi. A história desses dois amantes ressalta as possibilidades fluidas e fecundas da amicabilidade amatória “que pode tornar-se virtualmente qualquer coisa” (ROACH, 2012, p. 45). A mistura arrebatadora de atração mútua e estranhamento compartilhado é brilhantemente capturada na cena carregada ao final de Pantera Negra em que Okoye e W’Kabi se descobrem em lados opostos do campo de batalha. Okoye, com a lança em mãos, ordena a W’Kabi que pare de lutar e baixe sua arma ou então se arrisque a ser aniquilado. W’Kabi pergunta a ela: “Você me mataria, meu amor”? Ao que Okoye replica: “Por Wakanda? Sem dúvida”.

O mundo ficcional de Pantera Negra é, certamente, um domínio imaginário. Okoye, W’Kabi e as(os) demais cidadãs(ãos) de Wakanda habitam um reino de conto de fadas bastante longe do mundo real e histórico do casamento negro que Wedlocked descreve. O lugar queer do qual aflora a visão alternativa do filme sobre intimidade negra existe apenas dentro das quatro paredes da sala de projeção. Apesar disso, a incrível recepção de Pantera Negra desde seu lançamento indica que a fantasia racial que o filme aciona de uma “até então inimaginada [forma] de existência [negra] individual ou coletiva” (LOVE, p. 181) dialoga com um profundo desejo de “re-ver” a raça – ou, mais precisamente nesse contexto, a negritude – como algo diferente de, nas palavras de Franke, uma “maldição” (2015, p. 12), uma “mancha” (2015, p. 19), um “rótulo de inferioridade” (2015, p. 199) ou uma “marca” que as(os) afro-americanas(os) gostariam de apagar da racialidade da mesma maneira como as(os) homossexuais foram capazes de “limpar o sexo da homossexualidade” (2015, p. 6). A mera pressuposição da “negritude desabonatória” do filme abriu, na voz de um comentador, “uma porta para uma negritude radical na tela” (O’BRIEN, 2018). O poder e os prazeres de Pantera Negra repousam justamente em sua recusa flagrantemente fantástica de permanecer próximo demais ou por muito tempo no mundo da “raça realmente existente”.

Pantera Negra é uma ficção, mas como evento o filme nos diz muito sobre o papel que a cultura e a representação cultural estão desempenhando neste momento incômodo da história política da raça. Primeiro, Pantera Negra nos recorda que a força bruta e os contínuos poderes sociais que mantêm as(os) americanas(os) de descendência africana “amarradas(os) a uma identidade que explica e justifica as várias formas de desigualdade que sofrem” (FRANKE, 2015, p. 62) sempre percorre circuitos simbólicos da cultura e da indústria cultural. Segundo, a proposta interseccional do filme ao cruzar dinâmicas nacionais e globais que organizam raça e racismo contemporaneamente suscita questões nevrálgicas sobre como pessoas de descendência africana nos Estados Unidos e em outros países forjam novas subjetividades negras e produzem “novos sujeitos negros” (HALL, 2017, p. 293) para interpretar e interceptar economias culturais e de significação dentro das quais o racial é hoje imaginado, fantasiado e “escrito” numa rede mundial. Terceiro, Pantera Negra realça a importância da arte e da cultura para um urgente projeto “imaginal” (BOTTICI, 2014, p. 54) para sustentar novas e mais abertas formas de engajamento e convivência com a diferença cultural (HALL; SCHWARZ, 2008, p. 148) numa era de conflitos étnicos e raciais que ressurgem.

Esses longos e complicados temas levam a perguntas para as quais não tenho respostas prontas. De uma coisa, contudo, estou seguro. Uma teoria crítica queer da raça terá de rechaçar a metodologia branca de uma narrativa “americana” fechada, que sempre e repetidamente pinta a negritude como uma mancha imposta, como falta, falha, inferioridade, estigma, marca ou maldição. Isso significa, antes de mais nada, pensar a questão da América Negra e do Atlântico Negro conjuntamente, situando a raça e o discurso racial num quadro diaspórico mais amplo. Em vez da ênfase nacionalista de Wedlocked sobre o casamento negro e lesbigay nos Estados Unidos, Pantera Negra orienta uma agenda diferente, transnacional para a pesquisa crítica racial queer e comparativa sobre casamento negro. As perguntas-chave que estudos transnacionais comparativos desse tipo colocariam e tentariam abordar são se, por que, e como pessoas negras bissexuais, heterossexuais, gays e lésbicas ao redor do mundo experienciam a conjugalidade moldando espaços dentro do matrimônio que incluem possibilidades de intimidade relacional fora dele. O giro transnacional que proponho reconhece que o que chamamos de “raça” opera como uma modalidade móvel na qual outras categorias – como classe, religião, gênero, sexualidade, etnicidade, nacionalidade, região e linguagem – são vividas, governadas e reguladas. Ele compreende também que a raça e o racismo fazem o que fazem em distintos tempos e lugares por meio de articulações complexas e hábeis, com consequências imprevisíveis, geradoras de efeitos instáveis e mesmo queer. Essa abertura da raça – e, com ela, do gênero, da sexualidade, etc. – para além do “significante nacional” (HALL, 2017, p. 159) é uma das tarefas mais prementes de um projeto crítico racial e queer que pretenda compreender não apenas o que o casamento negro foi e é, mas também o que ele pode vir a ser.

Referências

Black Panter. Dir. Ryan Coogler. Marvel Studios, Walt Disney Pictures, 2018.

BOTTICI, Chiara. Imaginal politics: images beyond imagination and the imaginary. New York: Columbia UP, 2014.

FOUCAULT, Michel; CECCATY, René; DANET, Jean; LE BITOUX, Jean. De l’amitié comme mode de vie. Gai pied, v. 25, p. 38-39, 1981.

HALL, Stuart; SCHWARZ, Bill. Living with difference: Stuart Hall in conversation with Bill Schwarz. Soundings, v. 37, p. 148-58, 2008.

HALL, Stuart. The fateful triangle: race, ethnicity, nation. Cambridge, MA: Harvard UP, 2017.

HARRIS, Cheryl. Whiteness as property. Harvard Law Review, 106, p. 1709-91, 1993.

LIPSITZ, George. The possessive investment in whiteness: how white people profit from identity politics. Philadelphia: Temple UP, 2006.

LOVE, Heather. Queers__This. In: HALLEY, Janet; PARKER, Andrew (ed.) After Sex? On Writing since Queer Theory. Durham: Duke UP, 2011. p. 180-191.

O’BRIEN, Brandon. Who are you? Black Panter and the Politics of Belonging. Tor.com, 26 fev. 2018. Disponível em: <https://www.tor.com/2018/02/26/who-are-you-black-panther-and-the-politics-of-belonging/>

ROACH, Tom. Friendship as a way of life: Foucault, AIDS, and the politics of shared estrangement. Albany: SUNY P, 2012.

RORTY, Richard. Philosophy as science, metaphor, and politics. Essays on Heidegger and Others: Philosophical Papers, v. 2. Cambridge: Cambridge UP, 1991. p. 9-49.

[1] Nota de Tradução (NT): ao longo do texto, optou-se pela manutenção do termo queer e suas derivações (como unqueer) conforme o original, dadas as dificuldades de tradução literal e a apropriação atual do conceito pela literatura brasileira. Mantiveram-se também em itálico os destaques do autor.

[2] NT: Conforme explicitado pelo autor, em consulta realizada pelo tradutor, o conceito é aqui empregado para referir-se ao “casamento entre pessoas socialmente identificadas como negras”.

[3] NT: Efeito-posse ou efeito de dotação (no original: endowment effect) é um conceito do vocabulário da psicologia e da economia comportamentais consistente na maior inclinação que têm os indivíduos para manter um bem do que para adquirir o mesmo bem. Uma das maneiras como essa tendência se manifesta é pela variação dos valores de tais objetos, a depender da relação mantida com ele: uma pessoa em geral atribuirá um preço maior para vender algo que lhe pertence do que aquele que estaria disposta a pagar para adquirir o mesmo bem. No contexto da obra de K. Franke a categoria é associada à análise sobre “capital racial” e sobre a branquitude como uma espécie de “bem social” que se busca reter.


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