REVISTA LIBERDADES

FAÇA DOWNLOAD DO PDF
CONTOS
02
PREVISÃO DO TEMPO
João Pablo Trabuco

Eu peguei outro cigarro porque não suportava.

Os olhos faiscantes da advogada remexiam lentamente, como em êxtase, enquanto eu prendia a respiração por alguns instantes para conter a ansiedade. Eu certamente estava muito mais desconfortável do que ela. Ocorre, entretanto, que os dois sabiam exatamente o que fazer numa situação daquelas. Era praxe no meio jurídico.

A morte é um fato da vida.

O corpo ainda estava quente quando a perícia técnica chegou para averiguar o local do crime que, coincidentemente, era a delegacia. Como já não bastasse o constrangimento de ter um defunto no meu local de trabalho, ele fez questão de falecer dentro da minha própria sala. Ossos do ofício.

Emiti um documento assim que o tiro foi disparado, afinal, mais vale a fé pública em riste que o falatório do Ministério Público. Para mim estava tudo muito claro: suicídio. O caso dele era mesmo muito complexo: várias testemunhas no local do crime e a própria advogada lhe alertara sobre a possibilidade de uma pena privativa de liberdade.

O de cujus era um cliente tonto. Não sabia de seus direitos, como a maioria dos leigos não sabe, achava que tudo se resolvia numa conversa e não fazia ideia do quão lento e trabalhoso é o trâmite judicial. Doeu-lhe saber que estávamos ainda na fase investigatória e que a ação penal demoraria a iniciar, se assim decidisse o juiz.

– Mas essa conversa é espalhafatosa! – ele bradou contra mim

–- Senhor, diga isso ao Congresso, eles fazem as leis. Eu sou apenas um delegado, cumpro estritamente o que está escrito.

– Eu nem posso acreditar! Eu não acredito no senhor!

A advogada ria baixinho, queria debochar, mas os seus honorários dependiam de uma postura digna diante do nervosismo do cliente. Ela sabia que seria assim quando decidiu trocar o conforto de litígios empresariais pela atribulada vida de advocacia criminal.

– O doutor delegado está certo, Raul. – Ela falou serenamente, enquanto cruzava as pernas, sentada à cadeira de plástico do outro lado da minha mesa – Eu sei que você tem pressa e qualquer um no seu lugar teria, mas é realmente necessário esperar a conclusão do inquérito para que possamos iniciar a defesa propriamente dita.

– Você é uma mentirosa de primeira categoria!

O cliente se levantou exaltado, simulou uma tremedeira, e eu não consegui segurar o riso. Mas o contive rapidamente.

– Você não vale o dinheiro que eu lhe pago! – Ele esbravejou contra a advogada, que agora temeu perder o cliente – Eu nem mesmo queria a sua presença aqui, saiba disso. Eu nem mesmo acredito que você possa fazer alguma coisa por mim. O senhorzinho de barba branca ali (apontou para mim e espumou de nervosismo) pode resolver tudo num pulo, você sabe disso, todos sabemos. Mas ele não quer resolver nada, não é verdade? É muito mais cômodo deixar essa bunda gorda esparramada na cadeira enquanto o inferno toma conta da Terra.

– Controle o seu cliente, doutora – Eu intervim com cautela.

– “Controle o seu cliente”? Você está de brincadeira? – Ele se exaltou ainda mais. – Que tal se você controlar a sua delegacia enquanto eu e a minha advogada esperamos a minha absolvição? Que tal você controlar os seus funcionários ao invés de passar o dia sentado assistindo reality shows? E aí, o que me diz?

Eu ri com desdém. Aquela cena me ocorria quase todos os dias – o indivíduo é acusado porque cometeu um delito qualquer e a partir do indiciamento a sua vida se torna um caos. Um acusado nunca é acusado somente, pois toda a sociedade carrega o peso do crime nas costas.

– Primeiramente sou impelido a lhe esclarecer que não tenho funcionários. Aqui nesta repartição e em qualquer outra do país, somos todos funcionários públicos, trabalhamos para o Estado. E, de fato, qualquer reality show é mais interessante que você. Para ser ainda mais direto: por que você não me faz o favor de se retirar e me deixar sentado fazendo qualquer coisa que não olhando para a sua cara?

– Mas, ora...

– Raul, – a advogada se levantou e tocou os ombros do cliente – talvez seja realmente melhor irmos embora. Você precisa descansar, a situação é realmente preocupante, eu entendo, mas o melhor a fazer é ter calma e esperar o inquérito.

– Você só pode estar brincando!

Naquele momento eu suspirei fundo e acendi o meu cigarro porque sabia, tinha certeza que a cena continuaria por mais alguns momentos.

– Eu matei uma pessoa, doutora? Olhe para mim! Eu sou professor de português do ensino fundamental, poderia lecionar para o seu filho, o seu também, delegado, mas eles me acusam de matar alguém? Como isso é possível? Eu não teria coragem sequer de apontar uma arma para quem quer que seja. Pelo amor dos orixás, eu não sou assassino.

– Então, não há motivos para temer, não é verdade? – a advogada sorriu com simpatia e tentou levá-lo embora puxando-o pelos braços –, mas ele resistiu

– Doutor delegado, seja sincero, olhe para mim: eu pareço ser um homem que teria coragem de fazer qualquer outra coisa senão levar uma vida comum? Seja sincero e me diga se você realmente pensa o contrário.

– Eu não tenho o direito de julgar você, querido.

– Pare de fumar e diga! – ele gritou

Eu dei de ombros. A minha profissão é insuportavelmente desgastante certas vezes, mas não houve um só dia em que eu tenha me arrependido das minhas escolhas. Em meu pensamento tinha certeza: ele não apenas mataria uma pessoa, como várias e quantas vezes lhe fossem necessárias para satisfazer sua sociopatia.

– Vamos, doutor delegado, o que me diz? Eu pareço um a-s-s-a-s-s-i-n-o?

– Sim

Foi a palavra-chave.

Tomado por uma fúria implacável, o acusado pulou para minha mesa na clara intenção de me agredir fisicamente. A minha reação foi abrir a gaveta debaixo da mesa, pegar a arma e, sentado como estava, acertar-lhe um tiro na testa.

A advogada deu um gritinho agudo, não tão alto como o meu gato quando se assusta, mas se espantou com o fato. Suspirou com tristeza. Perdera quase toda a tarde na delegacia e não ganharia os honorários contratados.

Eu, todavia, sentei-me prontamente e redigi um escrito que declarava o suicídio. A colega advogada assinou como testemunha no mesmo instante e em questão de dias o colóquio estaria resolvido. Liguei também para um perito amigo de infância, competente para o feito, e solicitei sua equipe, já explicando como as coisas tinham acontecido e como ele devia escrever o seu laudo técnico.

Entrementes observei que a advogada tinha olhos azuis.  Não sei exatamente se essa observação me deixou nervoso, mas antes de perceber que eles não se fixavam em um lugar específico, antes disso eu estava tranquilo. Quando me dei conta que os seus olhos eram exatamente da cor do mar, logo me deixei ser enfeitiçado pela devoção àqueles olhinhos.

O defunto não tinha cheiro de defunto. Durante as horas iniciais era apenas alguém que dormia profundamente, alguém cujo sono transcende o limiar habitual. Durante as primeiras horas, eu não chamaria o falecido de defunto. Eu não diria que não tem vida, porquanto ao redor nada mudou realmente.

Enquanto esperávamos a chegada dos peritos criminais, ela cruzou novamente as pernas, trocou mensagens com alguém pelo celular e não disse nada. Não questionou o ocorrido, não lamentou a morte do cliente, tampouco esperou qualquer atitude de benfeitoria da minha parte. Eu sou um delegado e ela sabe que não é de meu feitio tratar com animosidade certos pleitos.

– Parece que não há muito a ser dito – eu comecei.

– De fato, não há.

– Eu vi na previsão do tempo que hoje vai chover.

– Mas de modo algum eu imaginaria chuva... – Ela sorriu pianinho – Logo hoje que eu tomaria banho de mar.

João Pablo Trabuco
Mestrando em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia.
Membro do Núcleo de Estudos sobre Sanção Penal (NESP).
Advogado.


Rua Onze de Agosto, 52 - 2º andar - Centro - São Paulo - SP - 01018-010 - (11) 3111-1040