REVISTA LIBERDADES

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Contos
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RETRATO
Mariana Salomão Carrara

Ninguém queria ir mas também ninguém ia dizer uma coisa dessas no meio do Natal. Eu lembro que a mãe fez uma panela muito grande de alguma coisa que a gente gostava e o cheiro foi dando pelo menos um pouco de vontade de ir. O Rafael deixando o nariz escorrer e querendo levar o cachorro, mas queria também só pra ver se alguém dizia alguma coisa naquela casa, mas nem pra dizer que não o pai tinha qualquer empenho.

Minha mãe saiu do silêncio só pra reclamar que teve de cozinhar sem nozes porque esse ano não vieram nozes na cesta que o pai recebia, agora até isso eles estão regulando, e fica até feio uma coisa dessas, chegar no Natal sem nozes. Nem mesmo uvas passas.

A casa do tio fica a quatro ruas dali e a gente sempre vai a pé. Dessa vez a panela parecia mais pesada e os passinhos do Rafa mais curtos, ainda com o bico na cara por causa do cachorro que ficou olhando o portão como se soubesse que é Natal, que as ruas têm umas luzes bonitas e que ele devia estar com a família como todos estão.

No começo da rua tinha uma viatura parada e eu fiquei pensando calado que as luzes da polícia são um pouco luzes de Natal, como se fossem uma estrela piscando no topo da árvore feito um laser vermelho atravessando a sala, e só por um instante eu fiquei com pena dos policiais porque era Natal e eles estavam ali sozinhos trancados que nem o cachorro olhando as famílias descendo a rua.

Meu tio cumprimentou o meu pai, que é irmão dele, daquele jeito de bater bem forte a mão nas costas, e eu lembro que reparei na marca da mão espalmada que ficou na camisa do meu pai e só foi desfazendo aos poucos conforme ele cumprimentava as mulheres nos seus abraços que iam alisando a roupa e acalmando de leve a marca nas costas. Meu pai odeia esses tapas do meu tio. O Rafa não cumprimentou ninguém e foi sentar diante da televisão que esse ano estava ligada bem baixinho em respeito à solenidade da tristeza, que a tristeza no Natal fica ainda mais solene.

A mim me cumprimentaram com distinção como se eu agora fosse o detentor de alguma missão, como se eu subitamente mais adulto, como se eu a obrigação de evitar que qualquer outra dor entrasse naquela casa. E isso eu via porque em vez do afago no cabelo ou na bochecha agora eles me olhavam no fundo do olho e seguravam um tempo o meu ombro que ia ficando pesado, tudo ia ficando muito pesado, e quanto mais seguravam o meu ombro mais eu queria ser o cachorro sozinho no escuro do quintal, a polícia parada na viatura, o Rafa invisível e com sono ao pé do sofá.

Mas a noite ia indo muito bem porque tudo isso era apenas eu reparando em volta. Entre eles o Natal ia seguindo como tinha de ser, ainda que sem nozes, nem uvas passas, a tia e a avó às vezes até mesmo umas risadas, minha mãe justificando qualquer coisa sobre o que tinha na panela, meu pai já sentado quase distinto bem no meio da mesa chamando o Rafa que talvez por ser a primeira vez em muito tempo que ouvia o próprio nome já levantou rápido rumo à mesa e só parou no caminho pra olhar o que as mulheres e o tio estavam trazendo da geladeira, talvez investigando o que iam lhe dar de comer no meio de tanta coisa esquisita, e depois sorrindo ao ver a mãe tirar da lancheira um hambúrguer e distraidamente colocar num prato infantil no micro-ondas, e a tia, agora sim fazendo um afago no cabelo dele,  entregando um molho de ketchup nas suas mãozinhas.

Eu voltava de lavar as mãos no banheiro quando vi o Rafa examinando o pote de ketchup como se fosse um brinquedo novo, um brinquedo de Natal, tentando abrir o lacre, porque embora o pote parecesse de tempos imemoriais, já quase sem rótulo, ainda havia um lacre, indicando talvez que o ketchup fosse de cestas de outros anos e outros natais. O pai com o olho perdido no fundo da televisão agora quase sem som, porque as pessoas tinham começado a falar todas juntas na cozinha, o pai esticou distraidamente o braço e alcançou do menino o pote e pareceu fazer mais esforço do que o estimado para abrir um frasco de ketchup, mesmo de tempos imemoriais, e tenho a impressão de que foi no exato momento em que a mãe chegou na sala com o hambúrguer murcho num pratinho e a tia logo atrás com uma bandeja de qualquer coisa, foi nesse exato momento que a tampa do ketchup voou até o teto como uma champanhe fermentada e empastada de sangue e grumos, o molho explodindo na mesa, no assoalho, na tinta finíssima das paredes que eu soube depois que só mesmo pintando por cima porque nem com sapólio, e o meu pai estático inteiro escorrendo vermelho, os cabelos, o óculos, a camisa, e por um instante no silêncio um pouco das vozes da televisão, mas logo em seguida o choro do Rafa que de imediato tomou conta da casa toda, da rua, que era um choro de quem via a morte pela segunda vez e de novo quando menos esperava por ela, e que o meu tio por ingenuidade ou desespero resolveu consolar explicando que era possível que tivesse mais um molho no armário, e a tia com um pouco mais de perspicácia dizia que não precisava ter medo, que era só porque estava estragado, muito gás, por isso explodia, e o Rafa talvez pensando que as coisas não explodem porque estão estragadas, simplesmente não podia ser assim.

E eu ali parado olhando o Rafa que gritava como nenhum menino daquele tamanho deveria saber gritar, e o meu pai em choque coberto de molho, as paredes, a toalha, o teto vermelho, e o menino gritando inconsolável, e ficou evidente que foi exatamente essa cena que o Rafael tinha visto aquela tarde na rua, que só ele tinha visto, pequeno, sozinho. O barulho, o tiro – que não era explosão nem gás – que estourou o Leo naqueles mesmos grumos vermelhos no chão, na parede, na cabeça, que estourou o Leo como se ele estivesse estragado, e não estava, andava tendo os seus problemas, esses problemas de tempos imemoriais, às vezes eu até pensava se eu gostava mesmo dele, porque irmão nem sempre a gente gosta, mas estragado não, e foi esse mesmo grito que o Rafa deve ter dado sozinho na rua enquanto a polícia fugia, fugia quase sem medo sob as suas luzes de Natal piscando na viatura.

E foi assim que ele deve ter gritado até que as pessoas levaram tudo dali e quando a gente chegou só tinha a mancha, quase a mesma mancha de ketchup que ficou no teto e na parede e que só pintando por cima porque nem com sapólio, e por mais que a tia trouxesse panos, guardanapos, já havíamos todos irremediavelmente visto, como se o pai ali sangrando fosse um retrato desgraçado que até ali só o Rafa tinha visto, um retrato de Natal. Por conta do grito do Rafa que não terminava nunca, tínhamos todos olhado pro pai e visto tudo o que os vizinhos não tinham deixado a gente ver, e ficamos ali num grito longo que não calava nem mesmo se a polícia se instalasse dentro da sala em infinitas sirenes, o grito perpétuo dos frascos que estouram bem na hora do natal, só porque ficaram tanto tempo esquecidos num canto, só porque nunca mais vai dar pra esquecer.

Mariana Salomão Carrara
Defensora Pública do Estado de São Paulo.
Tem três livros publicados (Idílico, Delicada uma de nós, e Fadas e copos no canto da casa), e diversos contos lançados em premiações e revistas nacionais.


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